Hoje fizeste anos.
É verdade.
Parece que estás mais velho, mais velho um ano.
Pelo menos dizem.
Pelo menos dizem que nasceste neste dia.
É verdade,
é verdade que também dizem que nasceste
há precisamente não sabes quantos anos.
Parece que foi ontem.
Parece que foi ontem?
Que lata!
Como sabes que parece ter sido ontem se não te lembras de ter nascido?
Não te lembras de ter nascido?
Claro que não!
É uma força de expressão!
Dizer que parece que foi ontem é uma força de expressão.
É como quem diz
que
a vida passa tão depressa como
um comboio alfa-pendular passa por qualquer estação.
Só isso.
Hoje fizeste anos.
É engraçado.
Se calhar não é engraçado.
É apenas uma constatação:
sentes-te porventura
um bocadinho mais velho?
Ontem, por exemplo, eras o mesmo que és hoje.
Sentes-te como se tivesses as mesmas vírgulas
e
os mesmos pontos finais.
Nem mais uma linha; és o mesmo
e pronto.
Nem mais um ponto final.
É verdade.
És o mesmo de ontem,
o mesmo de anteontem,
o mesmo de há uma semana,
de há um mês,
de há um ano.
Sem mais vírgulas ou pontos finais.
És o mesmo e pronto.
Mais velho ou com mais anos em cima do pêlo
és o mesmo e ninguém,
mas mesmo ninguém,
pode dizer que não.
És o mesmo
e
não se fala mais no assunto.
Ouviste?
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
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