domingo, 28 de setembro de 2008

Ainda ontem

Ainda ontem eras uma criança a chorar,
embalada pelas mãos de uma mãe e pelo coração de um pai,
uma menina a crescer para o tempo,
uma adolescente de sonhos de sonho,
uma alma apaixonada por um homem que haveria de ser teu,
uma mulher de aliança no dedo
e
pronta para enfrentar ondas, marés, ventos, tempestades, enfim, uma mulher.

Ainda ontem eras quem eras,
ainda ontem vivias numa linha de horizonte inimaginável,
procuravas um qualquer fim com ou sem fim,
esbracejavas por entre correntes de um rio sem foz,
lutavas até ficar sem voz,
amavas sem cobrar,
davas sem receber,
vencias sem pisar.

Sabes, Mãe, ainda ontem eras assim
e, acredita, nesse tempo sem tempo,
fosses o que fosses, fosses como fosses,
já eras Mãe.

Sabes, Mãe, ainda ontem o sol nasceu
e,
acredita,
ainda hoje nasce.
Porque o sol és tu, Mãe de todas as Mães.
Não és tu a vida de seis vidas?
De seis vidas que outras vidas deram?
Não és tu o exemplo mais do que perfeito de um exemplo sem exemplo?
Não és tu um vento que sopra até transformar o impossível?
Não és tu um mar eterno?
Não és tu a deusa da ternura que perdura?
Não és tu o paraíso de ondas intocáveis?

É verdade, Mãe, ainda ontem estavas ali, no berço de uma orgulhosa e humilde família,
ainda ontem estavas ali, no altar, a dizer sim quero viver com este homem para todo o sempre,
Ainda ontem estavas ali, não sei quantas vezes, a sentir-nos sorrir para um templo chamado vida,
Ainda ontem estavas sentada naquela cadeira a falar, a falar e a falar.
Adoras falar, adoras conversar, adoras estar onde estás, adoras viver.
Por isso, Mãe, ouve-me com atenção: não vás já embora, não vás, por favor.
Acredita, vou conversar com o Pai.
Ele não te pode querer ao lado dele, pelo menos agora,
Vou pedir-lhe apenas isto:
Pai, sê nosso amigo, sê amigo de todos amigos teus amigos e amigos da tua Deusa,
não queiras
a outra tua alma na tua alma.
Ele vai atender este pedido.
Ele não te vai levar.
Pelo menos por agora.
Ainda terás muita vida na tua vida.

E sabes o que mais me apetece dizer, Mãe?
Não sabes?
Vá lá, diz que sabes,
e
sorri sempre que repetir esta frase:
Obrigado, vida, sem ti não estava aqui.
Obrigado, Mãe, Deus sabe como te amam os que te amam.

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